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Sengunda Feira, 11 de dezembro de 2017
 
 
   
01/11/2005
PIERCING: deixe a boca fora dessa
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PIERCING: deixe a boca fora dessa
 
 
 
Na edição de nov/dez de 2001 da JAO (J. Assess. Prestação Serv. Odont.), foi publicado uma matéria com o Prof. Dr. Artur Cerri, intitulada “Piercing: Modismo Perigoso” que teve grande repercussão, inclusive na mídia.
Tanto a JAO como o próprio Prof. Cerri receberam dezenas de e-mails demonstrando interesse pelo assunto, tendo em vista as conseqüências do uso do “piercing” na cavidade bucal, algumas das quais preocupantes.
 
Nesta edição o Dr. Cerri, vai comentar mais sobre sua pesquisa em desenvolvimento na Universidade Santo Amaro – SP (UNISA) e quais suas conclusões. A pesquisa em questão trata de biopsias realizadas nos locais anatômicos onde os “piercings” encontram-se alojados.
 
JAO: O QUE O SENHOR ACHOU DA REPERCUSSÃO DA SUA ENTREVISTA SOBRE “PIERCING” NO JAO?
CERRI: Extremamente positiva. Fiquei contente com a quantidade de correspondência recebida, solicitando maiores informações e esclarecimentos sobre o assunto. A satisfação é dobrada ao constatar que a maioria dos interessados eram estudantes de todo o Brasil. Isso demonstra uma evolução e preocupação do aluno com a saúde da população. É gratificante.
 
JAO: PORQUE O SENHOR DECIDIU PESQUISAR SOBRE “PIERCING” NA BOCA?
CERRI: Como disse na última entrevista, a boca é uma cavidade extremamente vascularizada, sensível e repleta de microorganismos. Assim era esperado que qualquer elemento estranho, de origem traumática, inserido nessa região traria algum tipo de prejuízo. O que álias acontece. Por lado, uma das minhas linhas de pesquisa está relacionada às patologias da língua.
 
JAO: COMO ACONTECEU A IDÉIA DE FAZER UMA PESQUISA SOBRE ESSE TEMA?
CERRI: Simplesmente achar que o “piercing” na boca é prejudicial não seria o suficiente. O fato tinha que ser comprovado. A comprovação clínica poderia causar alguma dúvida, principalmente entre os usuários. Partindo desse princípio decidimos biopsiar o local onde esses “piercings” estão alojados. Nesse sentido, esse tipo de pesquisa é inédito no mundo pelo que sabemos. A maioria dos trabalhos relata a nocividade do “piercing”, depois da doença instalada ou relacionando a jóia com doenças infecciosas Nossa pesquisa esta mostrando as conseqüências do “piercing”, precocemente, na fase em que as evidências clínicas são indetectáveis na maioria das vezes.
 
JAO: EXPLIQUE MELHOR COMO É FEITA ESSA BIÓPSIA?
CERRI: Imagine um “piercing” colocado na língua. Para a colocação dessa jóia, a língua foi perfurada de um lado para o outro, ou seja, do dorso para o ventre, por um cateter. Imediatamente após essa perfuração junto ao sangue é introduzido o corpo do “piercing”, preso por duas esferas, colocadas na parte de cima e de baixo da língua. Pois bem, com o tempo, ao redor do corpo do “piercing” é estimulado novo tecido, formando um cilindro epitelial. É nesse cilindro que executamos as biópsias e que fica em contato com o metal.
 
JAO: POR QUE AS BIÓPSIAS SÃO FEITAS NESSE LOCAL?
CERRI: Porque é nesse cilindro epitelial, que existe o trauma crônico, provocado pelo “vai e vem” constante do corpo do “piercing”. Não obstante, o paciente adquiri o hábito de ficar estimulando o “piercing”, que por si só seria uma injúria. Por outro lado, a higienização do local é precária, acumulando bactérias, fragilizando o local e provocando halitose. Tivemos a oportunidade de constatar a presença de placa bacteriana e oxidação no metal, em diversos casos, aumentando o atrito e a halitose.
 
JAO: COMO ESSAS BIÓPSIAS SÃO REALIZADAS?
CERRI: De forma clássica, com anestesia local infiltrativa e o uso de punch. A biópsia em si, não impede que o paciente volte a usar o “piercing”. Esse fato na verdade é uma exigência do paciente. Para maior confiabilidade, os exames histológicos são realizados pelo mesmo patologista, com experiência em tecidos bucais. Retiramos em média de 1 a 3 mm de tecido.
 
JAO: HÁ QUANTO TEMPO O SENHOR VEM ESTUDANDO SOBRE “PIERCING”?
CERRI: O interesse pelo assunto começou em 1997, colhendo artigos e mantendo contato com entidades internacionais. Com o passar do tempo o interesse foi aumentando e montei um grupo de estudo nesse sentido. Hoje somos mais de 20 pessoas entre professores e alunos envolvidos nesse processo, que procuram constantemente matéria sobre “piercing” na literatura. Temos quase 1000 trabalhos catalogados, sendo a grande maioria estrangeira.
 
JAO: QUAL A JUSTIFICATIVA PARA A ESCASSES DE TRABALHOS NACIONAIS SOBRE “PIERCING”?
CERRI: Talvez pela falta de informação sobre os malefícios do “piercing” e pelo modismo relativamente recente do “piercing” no Brasil, que data de 1995/96. Com o passar do tempo, com certeza o interesse pelo assunto tende a aumentar, na proporção que aumenta o número de usuários Na verdade, isso já esta acontecendo.
 
JAO: VAMOS FALAR SOBRE SUA PESQUISA. ONDE ESTÁ SENDO DESENVOLVIDA?
CERRI: A pesquisa está sendo desenvolvida por mim e pelo professor Carlos Eduardo X. Ribeiro da Silva, e um grupo de colaboradores, na Universidade de Santo Amaro (UNISA – SP), através da disciplina de Estomatologia. É importante esclarecer que esse trabalho é aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade. Vale um alerta: Qualquer trabalho que envolva paciente deve ter a anuência do Comitê de Ética da Instituição, para não traduzir ilegalidade e transtornos. Ninguém pode ir biopsiando a “torta e a direita” sem amparo legal da Universidade e consentimento do paciente.
 
JAO: COMO OS PACIENTES SÃO SELECIONADOS PARA A PESQUISA?
CERRI: Nós trabalhamos com pacientes maiores de idade que usam “piercing” na boca e que procuram a UNISA, para tratamento odontológico. Os pacientes são esclarecidos sobre os objetivos da pesquisa e havendo concordância, a biópsia é realizada, após minucioso exame clínico. O paciente é informado do resultado do histopatológico e recebe por escrito as orientações sobre os riscos existentes. Tudo isso é feito dentro de critérios estabelecidos pela Universidade e pelo Controle de Ética. A maioria dos pacientes são jovens de ambos os sexos, maiores de idade e de todos os níveis sociais.
 
JAO: QUANTAS BIÓPSIAS FORAM REALIZADAS ATÉ O MOMENTO?
CERRI: Nós já realizamos perto de 80 biópsias, mas temos o resultado final de aproximadamente 60 casos. O número de casos poderia ser maior, mas nem todos os usuários de “piercing” aceitam fazer a biópsia. Como tivemos a oportunidade de afirmar anteriormente, todos os 60 casos apresentaram algum tipo de alteração histológica, o que ratifica a nocividade do “piercing”. Por questões legais, só trabalhamos com pacientes maior de idade.
 
JAO: QUAIS SERIAM ESSAS ALTERAÇÕES?
CERI: As alterações evidenciadas estão relacionadas a alguns fatores. Quanto maior o tempo de uso do “piercing” maiores são as conseqüências. Mais da metade dos resultados está relacionada a processo inflamatório moderado e severo. O restante dos casos está distribuído entre mucocele, metaplasia, papiloma, fibroma, úlcera traumática e até HPV, displasia e leucoplasia, consideradas como lesões cancerizáveis. Portanto, o “piercing” não é inofensivo como acreditam alguns. No caso do HPV, o uso do “piercing”, certamente facilitou a instalação do vírus. Muitos pensam que as reações da pele e da boca são idênticas, o que não é verdade. Pelo fato do “piercing” na pele provocar poucas reações locais, não quer dizer que na boca irá ocorrer a mesma coisa. A pele e a boca são áreas anatômicas diferentes. A pele, por exemplo, tem uma espessura bem maior que a mucosa bucal, proporcionando maior resistência além de ser  toda queratinizada.
 
JAO: POR QUE ESSAS ALTERAÇÕES OCORREM?
CERRI: Toda ação provoca uma reação. Nesse sentido, o tecido ao ser estimulado, irá reagir. O “piercing” é um estímulo (trauma) crônico. Diante de um trauma o tecido pode reagir através de processo inflamatório, ulceração, proliferação celular, alterações cancerizáveis etc... O tipo de reação do tecido de certa forma é imprevisível, mas pode em alguns casos ser reversível, após a eliminação do estimulo. O melanoma, é um exemplo típico onde o trauma assume importante função na promoção da doença
 
JAO: COMO O SENHOR AVALIA ESTES RESULTADOS?
CERRI: De certa forma era esperado, inclusive a presença de lesões cancerizáveis. O tempo médio da utilização do “piercing” na boca entre os pacientes pesquisados era de 2,5 anos. A dúvida é o que poderá ser encontrado com 10 anos de uso. Não podemos esquecer que o período médio da evolução do câncer é de 10 anos. Por exemplo, a pessoa que adquiriu câncer provocado pelo cigarro é fumante há décadas.  A melhor maneira de evitar complicações é abandonar o "piercing", ou pagar para ver.
 
JAO: O SENHOR RELACIONA O PIERCING AO CÂNCER?
CERRI: E porque não?Indícios parecem existir, ainda que não tenhamos até o momento nenhuma comprovação. O câncer bucal está relacionado a condições multifatoriais. O trauma é uma dessas condições. O próprio INCA (Instituto Nacional do Câncer) aponta o trauma como condição cancerizável. Se a pessoa bebe, fuma e possui “piercing”, ou seja, trauma crônico, as chances de câncer são maiores. Se o “piercing” provocou uma lesão cancerizável, pode provocar também outras doenças. Atualmente é indiscutível a relação do “piercing” com Hepatites, HIV, Endocardite, Tétano, Hemorragias e outras conseqüências. Pode ser que no futuro ele seja relacionado ao câncer, evidências existem. Antigamente acreditava-se que a AIDS só acometia homossexuais. Durante muito tempo a hepatite C foi chamada de hepatite pós-transfusional, pois pensava-se que era uma infecção exclusiva das pessoas que recebiam transfusões de sangue. Nos últimos 20 anos o câncer de boca no mundo aumentou em 50%. No Brasil esse aumento foi de 37%. A idade dos portadores de Câncer bucal também esta diminuindo. É óbvio que esses fatos estão relacionados com a maior exposição das condições cancerizáveis, cada vez mais cedo.
 
JAO: QUANDO SEU TRABALHO SERÁ CONCLUÍDO?
CERRI: Nós temos até o final de 2003 para concluir a pesquisa, até lá esperamos biopsiar perto de 200 casos. Nossa preocupação é constatar a regressão de algumas alterações após o abandono do "piercing", através de nova biópsia. O problema prende-se ao fato que a grande maioria continua usando o “piercing” após a biópsia, mesmo tendo conhecimento do resultado. A pesquisa relaciona ainda outros fatores, como idade, sexo, hábitos e outras condições, que serão cruzados posteriormente. Essa pesquisa foi criteriosamente elaborada, alicerçada na literatura e nos resultados que estamos obtendo. No Brasil, poucos valorizam pesquisas epidemiológicas. No entanto, várias entidades estão interessadas em nossos resultados. Não é nossa intenção polemizar com os colocadores ou vendedores de “piercings”, queremos apenas constatar fatos. Mas é necessário maior vigilância das autoridades nos locais onde se colocam “piercing”.
 
JAO: O METAL TAMBÉM PODE CAUSAR ALGUM PROBLEMA?
CERRI: Recentemente o IPT divulgou um trabalho relatando os problemas alérgicos causados pelo metal do “piercing”. Independente da origem do metal eles são chamados genericamente de aço cirúrgico. O chamado aço cirúrgico pode ser de nióbio, titânio, ouro, etc... . Quanto menos nobre o metal, maior sua incompatibilidade biológica e maior os riscos de reações. Por isso, o ideal é não usar nada. Existem também “piercing” mais baratos, como os de acrílico e madeira
 
JAO: O QUE FAZER DIANTE DOS FATOS?
CERRI: Em primeiro lugar o uso do “piercing” veio para ficar e não será abolido através de leis proibitivas ou punições. O usuário tem que ser esclarecido sobre os riscos do “piercing”, assim como ser faz com o cigarro. O livre arbítrio deve ser preservado. Se a pessoa apesar de tudo quiser usar, que use. No entanto, deve-se procurar um local confiável, com colocador (piercer) experiente e que utilize materiais descartáveis. Pelos resultados preliminares de nosso trabalho, todo usuário de “piercing” bucal deveria ser acompanhado periodicamente por um C.D. A exemplo de outros órgãos internacionais, nossas entidades deveriam se pronunciar sobre o “piercing” bucal. Essa omissão é prejudicial e estimulante.
 
JAO: COMO AS PESSOAS TÊM REAGIDO A PESQUISA?
CERRI: Por se tratar de assunto polêmico, somos constantemente procurados pela mídia. A grande maioria das pessoas elogia e incentiva nosso trabalho, mesmo porque ele é “in vivo”, em tempo real. Alguns poucos porem criticam, sem conhecer o assunto e a essência da pesquisa. Os resultados divulgados até o momento não são conclusivos, mas as chances de alterações significativas nos resultados finais são pequenas. Com o objetivo de incentivar, orientar e atualizar profissionais e acadêmicos interessados criamos recentemente em S.Paulo a SOCIEDADE PAULISTA DE ESTOMATOLOGIA E CÂNCER BUCAL-SOPE.
 

Odontologia Personalizada - Fonte: JAO